Olhe ao seu redor. Esfregue os seus gravetos mentais e acenda um fogo. Acorde o macaquinho do sótom-mental. Eles estão lá, estão por toda a parte, e sustentam o seu mundo. É só ver. O que eles significam? Pra mim? Hum... bem... o que eles significam para você? Veja, simplesmente veja-os. Afinal, as maiores viagens também começaram com um único passo.

quinta-feira, abril 02, 2009

Hamlet

A noite estava quente e a sala tornou-se subitamente insuportável _ coincidindo com o DJ tocando a primeiríssima nota da festa daquela noite, nenhuma ironia. Na varanda a música eletrônica misturava-se ao barulho do mar em frente, isso eu podia suportar, apesar da maresia misturada ao suor grudando na minha pele. Além de mim, naquela varanda haviam mais três pessoas, mas eles estavam muito entretidos na sua sexualidade poser para me perceber ali quieto e alheio à festa que acontecia na minha própia casa. Respirei fundo _ se alguém ali tinha o direito de quebrar o dress code era eu mesmo _ e tirei a máscara que fervia no meu rosto.

A idéia de uma festa à fantasia nunca me animou, mas confesso que criar a fantasia foi bem divertido. Aproveitei a oportunidade para homenagear a minha heroína trágica favorita: Ofélia. Mas ela não merecia ser caricaturada na drag que um homem vestido de mulher facilmente parece, ela merecia estilo e cuidado. Uma camisa larga de uma gaze bordada bem fluida, uma calça preta justa, botas. Meu moicano característico seria feito com um gel de “efeito molhado” numa alusão à morte por afogamento da pobre Ofélia _ ah, doce menina, se ela soubesse da verdade a sua história poderia ter sido diferente? Quanto ao rosto, seria uma máscara como aquelas do teatro japonês, cobrindo tanto o rosto quanto a alma do ator por trás dela. Gostei muito do resultado final, mas na hora H eu preferia estar em qualquer lugar desde que fosse longe daquelas pessoas e suas onipresentes vitrines invisíveis.
No início da noite meu apartamento parecia a ilustração de um cabaré moderno, tudo muito sofisticado. Mas nada que um verão tropical regado ao absinto já tradicional na minha casa _ carinhosamente apelidado de soma _, não pudesse transformar ao longo do primeiro par de horas. E o ar condicionado carregado de cigarro como um pub inglês tornou-se elétrico com uma tensão em T maiúsculo. Foi nesse momento em que eu não agüentei mais aquele teatro todo e retirei-me com a minha Ofélia para a varanda.

Eu respirei fundo e tirei a máscara: Ofélia se foi. E no exato momento em que aquela casca vazia caiu no chão eu ouvi um leve rangido um pouco mais atrás. Era a minha rede, um item de mobiliário obrigatório em qualquer casa brasileira, e obviamente aquele sentado nela era uma presença inédita em minha casa: todos os habitués eram europeizados demais para prestar atenção em algo tão indígena quanto uma simples rede na varanda. Virei o rosto e procurei seus olhos.

quinta-feira, março 26, 2009

Fotos

Marin me ensinou tudo que eu sei. Mas dizer isso a alguém era como dizer que eu fizera contato um espírito vindo do além. Ninguém a conhecia por esse nome. Todos só a chamavam de Einar, era como ela se apresentava ao mundo, e às pessoas do mundo. Einar não era nem um nome de menina, mas era nórdico e às vezes ela gostava de se sentir como uma Valquíria. Mas para mim ela seria sempre Marin, Marin, Marin, ecoando nos meus ouvidos como o mar e suas ondas vindas do horizonte. Marin, Marin, Marin, eu ficava repetindo esse nome para o quarto escuro enquanto ela dormia com a cabeça no meu colo e o corpo semi-oculto pelos lençóis em cuja cor eu nunca prestei atenção. Marin, Marin, Marin, eu repetia até meus ouvidos ignorassem todos os sons e aprendessem a ouvir o eco que a escuridão produzia. Marin... Até que ela acordava, não por eu estar falando, mas algo nela se inquietava quando havia alguém a olhando dormir, mesmo que no escuro só se pudesse ver a linha de luz que o poste projetava através do espaço entre a cortina e a janela manchada de chuva escorrendo. Quando chovia eu sempre estava ali naquele quarto com ela. Mesmo que estivesse do outro lado da rua ou do outro lado do mundo, mesmo que fosse de dia, mesmo que o dia parecesse tão longo que o sol parecesse ter perdido o caminho para o horizonte. Eu sempre estava ali. E ela acordava e me dizia “Ei”, e o seu sono dava um jeito de me dizer para deixar de ser boba e ir dormir também.

To be continued.... somewhere else ;)

segunda-feira, março 23, 2009

Shame on me

blog, blogginho meu,
existe uma escritora mais relapsa do que eu?
Volte sempre e use filtro solar.